Portugal – Que nunca caiam as pontes entre nós

Terra à vista. Padrão dos Descobrimentos
Minha história com Portugal começou como a de muitos brasileiros: Dentro da família, com algum ascendente (no meu caso, por parte de pai e mãe) e continuou depois que meu marido (brasileiro) tirou sua nacionalidade portuguesa, o que despertou em mim um sentimento de carinho ainda maior pelo país. Sempre tive muita curiosidade pela terrinha, mas acabei conhecendo-a tarde, depois de já ter ido a vários países europeus. A boa notícia é que é um destino literalmente para todos os públicos e, não importa com que idade você vá, sempre vai haver algo interessante para fazer.
Já que demorei pra ir, não ia contentar-me só com Lisboa. Portugal é um pouco como a Espanha: Apesar de seu território pequeno (comparando-o com Brasil), cada cantinho tem um interesse enorme concentrado – sempre com muita história.
Neste primeiro post vou falar de Lisboa e de dicas gerais de Portugal. No próximo publico um compêndio com outras cidades imperdíveis desse país tão surpreendente.

Chegando de madrugada à linda Estação do Oriente, projetada por Santiago Calatrava
- Lisboa
HOSPEDAGEM E TRANSPORTE
Muita gente se lembra do Rio de Janeiro quando chega a Lisboa, em especial de alguns bairros cariocas (como Santa Teresa). A cidade é uma graça, super fácil para passear e bem comunicada com metrô, bonde e ônibus (autocarro). Já fiquei hospedada em dois lugares diferentes na capital portuguesa. O primeiro, o Lisboa Central Hostel, não é tão central mas está ao lado de uma das principais atrações da cidade, o Parque Eduardo VII (que tem uns jardins maravilhosos), além de estar ao norte, que concentra muitas atrações culturais (ver abaixo). A segunda opção, o Lisbon Poets Hostel, acho mais bacana. É um hostal que fica no Chiado, um dos bairros mais vivos da cidade. Também há opções perto do Cais do Sodré, boas para quem quiser ficar indo e voltando a cidades ao redor de Lisboa, apesar de ser uma região com uma cara mais feinha, como quase todo bairro perto do porto. Dependendo do número de dias que você quiser dedicar a Lisboa, vale a pena comprar o Lisboa Card, que dá acesso livre ao metrô, ônibus, bonde e a várias atrações culturais, além de descontos em circuitos e cruzeiros. Há opções de 24h, 48h e 72h e está à venda em todas as oficinas de turismo de Lisboa e nas bilheterias da rede de transportes Carris.
O QUE VER

Praça do Comércio
Lisboa tem uma parte baixa e outra alta, ligadas por vários elevadores (Elevador de Santa Justa, Elevador da Glória e Elevador do Lavra e Elevador ou Ascensor da Bica). Subir ou descer por algum deles é parte do passeio. As áreas da Baixa e Ribeira podem ser um bom começo para seu roteiro. Seguindo a Rua Augusta (rua comercial calçada com pedrinhas portuguesas) você desemboca na Praça do Comércio, com a bela estátua equestre de Dom José e o Arco da Vitória. De lá já dá pra ver o rio Tejo. A oeste da Praça está o Mercado da Ribeira, com sua abóbada pontiaguda, que foi o mercado da cidade e hoje vende arte e artesanato. Ali perto também estão as praças da Figueira e a Dom Pedro IV (conhecida como Praça do Rossio).
No Bairro Alto e Chiado, a paisagem se destaca por suas ruas amplas, seus cafés, lojinhas e restaurantes de design. Entre as atrações desta região estão as ruínas do Convento do Carmo (a Praça do Carmo, ali perto, nome reúne vários bairros e restaurantes legais), o Miradouro de São Pedro de Alcântara e a Igreja de São Roque, com seu interior de mármore, ouro e azulejos, além de sua bonita Capela de São João Batista que tem até lápis-lázuli em sua composição. Nessa região também se encontram o Jardim Botânico e o Ascensor da Bica, o mais bonitinho de todos

Vista do Castelo de São Jorge
As regiões de Alfama, Castelo, e Graça representam a parte mais antiga da cidade, com suas ruas medievais de disposição labiríntica e suas colinas. Prepare-se para o sobe-e-desce com um tênis confortável. Tênis mesmo, porque as pedras lisas escorregam se você for de sapato baixo, chinelo ou sandália. Alfama é o berço do fado e por lá você encontra as casas mais famosas (e mais turísticas, infelizmente) para escutar este ritmo pungente. A Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa fica nessa área e é um museu que conta sua história. Por lá também estão a Catedral da Sé, de passado muçulmano (aliás, ‘alfama’ vem de ‘al-hama’, que significa “mananciais”ou “banho”), o Museu de Artes Decorativas Portuguesas (com mobiliários, tecidos e azulejos barrocos) e os lindos mirantes Largo da Porta do Sol e Miradouro de Santa Luzia.
Na parte do Castelo o destaque é o Castelo de São Jorge, onde você pode passar pelo menos duas deliciosas horas relaxando de cara para uma das melhores vistas da cidade. Em seguida sugiro um passeio pelo antigo Bairro da Mouraria, que, como diz o nome, era o bairro árabe. Graça fica a nordeste do Castelo e abriga os mirantes da Graça e da Senhora do Monte, além da luxuosa Igreja de São Vicente de Fora. A cerca de um quilômetro da estação de trem Santa Apolônia, que fica nesta área, está o Museu Nacional do Azulejo, que, apesar de mais afastadinho, me pareceu especialmente interessante por ser uma arte única de Portugal. Eu sou uma apaixonada por estes quadradinhos e fiquei louca com as distintas padronagens dos azulejos expostos ali, lindo mesmo.
Mas a área que concentra os museus mais interessantes é o norte da cidade, nas regiões do Rato, Marquês de Pombal e Saldanha. Um deles é o Museu Calouste Gulbenkian (que leva o nome desse mecenas armênio que se exilou em Portugal), com suas mais de 6 mil peças de arte egípcia, islâmica, chinesa, armênia, grega e romana, além de telas de pintores como Rubens e Rembrandt (como a célebre Retrato de um velho) e uma fofa coleção cristais e joias de René Lalique. Nesta zona também se encontram o Centro de Arte Moderna e o desestressante Parque Eduardo VII. Não perca suas estufas, são maravilhosas.

O Mosteiro visto de dentro
Finalmente chegamos a Belém, talvez a área mais famosa de Lisboa- e que merece um dia inteiro. Apesar de um pouco afastada do centro, é mole chegar até lá. Saem ônibus e trens para Belém desde a Praça da Figueira, trens desde a Praça do Comércio e ônibus do Rossio. O que tem bom em Belém? Além de sua importância arquitetônica e seus monumentos que são Patrimônio da Humanidade da Unesco, simplesmente foi daqui que Vasco da Gama zarpou em 1497 para descobrir a rota marinha à Índia, o que mudou para sempre a história e importância política de Portugal e consequentemente a trajetória daquela terra desconhecida povoada por tupi-guaranis e que viria a ser descoberta por Pedro Álvares Cabral três anos depois.
Quando Da Gama voltou, o rei Manuel I ordenou a construção de um monastério no lugar de uma capela ribeirinha onde o navegador pernoitou com sua tripulação na véspera da partida. O resultado foi o Mosteiro dos Jerónimos cuja exuberante arquitetura manuelina anuncia aos quatro ventos o triunfo do navegador. A um quilômetro do mosteiro, se encontra um dos cartões-postais da cidade, a Torre de Belém, com sua mistura gótica, bizantina e manuelina, construída para ajudar a vigiar esta entrada da cidade, e que hoje oferece a melhor vista do famoso mapa-múndi desenhado no chão. Ali pertinho, há o Padrão dos Descobrimentos, super monumento-escultura inaugurado em 1960 em homenagem ao V centenário do príncipe Henrique o Navegador e que coloca “no mesmo barco” o próprio Henrique, Vasco da Gama, Luís de Camões, Fernão Magalhães e outros personagens importantes da história portuguesa. Não deixe de nenhuma forma de provar o pastel de Belém por ali (mais detalhes abaixo em ‘COMER’).

Torre de Belém
A Zona Metropolitana da cidade também tem várias atrações, como o Parque das Nações (com suas altíssimas bandeiras de todos os países), construído para a Expo-98 de Lisboa. Por ali dá para ficar o dia inteiro revezando-se entre uma volta pelo relaxante Oceanário (o maior aquário da Europa), um passeio pelos ares no Teleférico (uma das coisas mais deliciosas que fiz em Lisboa), uma refrescante parada no Parque das Águas e terminar se divertindo no Pavilhão do Conhecimento, onde se pode conhecer e provar diversas experiências científicas.
- Dicas gerais de Portugal
LINGUAGEM
Falamos o mesmo idioma, mas, como é bem sabido, há muitas palavras e expressões diferentes para dizer o que queremos. Por exemplo, os portugueses praticamente não usam o gerúndio (só em construções no passado), substituindo-o pelo infinitivo: “Estou a buscar esta rua há horas”. A lista abaixo traz alguns exemplos:
- Bife – Prego
- Café-da-manhã – Pequeno-almoço
- Cafezinho – Bica
- Chopp- Imperial
- D.Pedro I – É conhecido em Portugal como D. Pedro IV
- Embrulhar “para presente” – Embrulhar “para oferta”
- Endereço – Morada
- Ensopado – Estofado
- Entender – Perceber (“Não estou a perceber”)
- Mesas do lado de fora (de bar ou restaurante) – Esplanada
- Ônibus – Autocarro
- Porção/ Meia-porção – Dose / Meia-dose
- Por favor – Se faz favor
- Sobrenome – Apelido
- Trem – Comboio
Ao contrário do Brasil, Portugal não adiantou a Reforma Ortográfica e você ainda vai ver tudo escrito como era antes por lá. Aliás, se quiser ler algum jornal local pra ir se acostumando com as diferenças de vocabulário, recomendo o Público, que é meio de opinião, com artigos ótimos.
Eles são bem mais formais que a gente e convém tratar as pessoas desconhecidas com certo distanciamento. É bem comum um jovem chamar outro jovem de “o senhor” ou “a senhora” se não o/a conhece ou então chamar-nos pelo nome, na terceira pessoa, mesmo falando diretamente conosco: “A Clarissa aceita um pouco mais de chá?”. Quando há intimidade, eles usam o “tu” (bem conjugado, o que é raro no Brasil). É engraçado também perceber como as novelas brasileiras estão agregando novas palavras ao vocabulário dos lusos, principalmente gírias.
COMER
Um brasileiro pode achar que não vai ver nenhuma novidade neste quesito porque, por sorte, a comida portuguesa é algo bem presente na nossa cultura. Mas Portugal é muito mais que bacalhau e vinho do Porto e cabe também contar alguns hábitos deles à mesa. Em quase todos os restaurantes (não só em Lisboa), o garçom já chega com um couvert que normalmente inclui pão, azeitonas, um ou dois miniqueijinhos tipo frescal (maravilhosos!), além do sensacional patê de peixe. O couvert normalmente não tem um preço fixo, ou seja, eles cobram os itens que você comer (mas é uma boa avisar ao garçom antes).

Assim é a alheira
Entre os pratos típicos, os meus preferidos são o bacalhau com natas (desfiado com creme de leite) e a açorda, sopa servida dentro de um pão feita com o próprio pão, muito azeite, alho, ervas e, às vezes, ovo. Um prato bem popular é o bacalhau a Brás (desfiado com batatas e ovos mexidos). Entre os pratos de carne, se destacam o cabrito assado, a chanfana (cabra ensopada no vinho), o coelho, o borrego (cordeiro), as costeletas de porco, leitõezinhos e a alheira, um embutido feito de vários tipos de carne, temperado com muito alho e servido à milanesa com ovos e batatas (rápido e barato para quem tem pressa). Os fãs de frutos-do-mar, peixes (a sardinha é altamente recomendável) e embutidos em geral também vão se fartar por lá. Mas a minha perdição mesmo são os doces. Não tem nada igual aos pastéis de nata fresquinhos, que você encontra em qualquer padaria, assim como o toucinho do céu, a barriga de freira, a cavaca, os filhós, os ovos moles (cozidos e servidos cmo trufinhas ou dentro de uma espécie de uma massinha) e vários outros. Não pergunte muito, peça o que lhe parecer mais apetitoso na vitrine. O melhor pastel de nata se encontra em Belém, no café Pastéis de Belém (Rua de Belém, 84), onde se faz o pastel de Belém legítimo (só existe em Belém , o resto é de nata). Este café também serve saborosos pastéis de bacalhau (quitute similar ao nosso bolinho de bacalhau).

Doces, doces, doces
No quesito bebidas, além do afamado Porto (falarei mais dele no post das cidades portuguesas imperdíveis) e dos vinhos tradicionais (as regiões produtoras são Douro, Bairrada, Alentejo, Dão, Estremadura e Ribatejo), há o vinho verde (vinho jovem meio espumante), a ginjinha (licor de ginja, frutinha que lembra a cereja) e o Beirão, um digestivo muito doce que fica gostoso com gelo. Você pode provar algumas dessas bebidas em restaurantes, tascas (tavernas), adegas ou casas de pasto.
Nós não seguimos muito as dicas de restaurantes do nosso guia (era agosto e quase todos estavam fechados por férias), mas é meio como o Brasil: Há muitos restaurantes baratos, de comida boa e farta, que você encontra por acaso em praticamente todos os bairros de Lisboa. É legal aproveitar também para provar comidas típicas de ex-colônias portuguesas, como Goa (o sarapatel vem de lá), Angola ou Cabo Verde. O escondido São Cristóvão (Rua de São Cristóvão, 30, em Alfama) foi uma experiência angolana curiosa. O prato mais famoso deste quase boteco é a moamba de galinha, uma deliciosa galinha ensopada com legumes, servida por um garçom-cozinheiro figuraça e super gente boa. Totalmente oposto ao glamour do famoso café A Brasileira (Rua Garret, 120, Bairro Alto), um estabelecimento art déco que conta com uma estátua de Fernando Pessoa na porta e onde dezenas de turistas se apinham para conseguir uma mesinha e pagar caro por uma bica.
FADO
Não sou muito fã, por isso não tenho muitas dicas. Mas tanto portugueses quanto viajantes apontaram o Clube do Fado, que fica perto da Sé, como o melhor lugar para escutá-lo ao vivo. Meu Lonely Planet recomenda com reservas esse lugar, diz que é extremamente turístico e prefere sugerir o A Baiúca (Rua de São Miguel, 20, Alfama; 00 351 21 886 7284 ). Convém reservar nos dois casos. Para quem gosta de uma fusion, recentemente um amigo português me apresentou o Dead Combo, que faz mistura este ritmo tradicional com rock e tem influências da América e África também. Bem legal.
ADVERTÊNCIAS
Na Rua Augusta, na parte antiga da cidade e na região do Cais do Sodré há muitos, muitos traficantes e eles não podem ver alguém de fora que vão logo oferecendo algo (principalmente haxixe). Simplesmente ignore, eles não fazem nada, são só chatos mesmo. Mas é curioso como abordam as pessoas à luz do dia em algumas das zonas mais movimentadas e turísticas da cidade. No mais, vale a dica para qualquer cidade grande da Europa: olho na carteira.

Parque das Nações
AVIÃO, TREM OU ÔNIBUS
No caso de querer incluir Lisboa em algum roteiro com cidades de outros países da Europa, vale lembrar que as passagens de avião desde a Espanha e Inglaterra costumam ser baratas se você comprar com certa antecedência. Não recomendo muito encarar um ônibus partindo da Espanha porque são umas oito horas de viagem (desde Madri). A estrada é boa e há várias paradas (o autocarro não tem banheiro), mas é cansativo.
O trem internacional pode ser a opção mais cara de todas, melhor tentar mesmo alguma promoção aérea. Para viagens partindo de dentro da Europa eu olho sempre o trabber.com, um dos melhores buscadores de voos que conheci. Dá até pra registrar uns alertas, ou seja, quando pintar uma promoção, ele envia por email.
Para viagens dentro de Portugal, o ‘comboio’ funciona bem e é o jeito mais prático de fazer viagens curtas (principalmente as que surgem de última hora).
P.S.: O título “Que nunca caiam as pontes entre nós” é um verso da canção Pontes entre nós, do Pedro Abrunhosa, um dos cantores e compositores portugueses de pop rock mais legais que conheci.








Clarissa, amei seu texto e suas dicas!!!
Queria ter visto antes de ir para Portugal, mas a partir de agora com certeza vou checar as dicas por aqui nas próximas viagens.
Ao contrário do que você comentou, minha relação com Portugal não vem de família, mas de uma típica brasileira filha de carioca com mineiro, sem certeza da origem da minha família. Mas como brasileira, sempre temos uma boa dose de herança lusitana e a relação entre os dois países me surpreendeu. Escrevi bastante sobre isso no meu blog, que estou registrando pensamentos e observações numa viagem de 6 meses por alguns países, principalmente Europa, e foi justamente iniciada em Portugal. http://aquioualgumlugar.com/2012/03/12/heranca-lusitana-identidade-brasileira/
Para complementar suas dicas, eu fui numa casa de fado (adoro coisas típicas) chamada Tasca do Xico, em Alfama (tb tem no Bairro Alto). Bem legal e típico!
Viva, Fabinho!!!!!
Classinha vc tá local hein?! Amei!!!!!
beijos gigantes
Viva Lisboaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Beijos,
Fabinho.
É impossível não se apaixonar por Lisboa! Quem for ao Parque Eduardo não pode perder a estufa com várias espécies de plantas exóticas! No Oriente, vale uma passada no sensacional Pavilhão do Conhecimento! É muito fixe! No Chiado, a livraria Bertrand desde 1732 é a melhor opção para mergulhar na literatura lusa!
Viva Portugal!