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País Basco: ongi etorri!

Ou, em bom português, “bem-vindo”, traduzido do euskera.

Manifestações pedindo a independência de Euskadi estão por toda parte

Manifestações pedindo a independência de Euskadi estão por toda parte

Há pouco mais de um ano decidi fazer uma viagem de dez dias pelo País Basco, uma das partes mais bacanas na Espanha – e que não costuma estar nos principais roteiros dos visitantes, normalmente mais interessados em Madri, Barcelona e cidades da AndaluziaEuskadi (nome em basco desta comunidade autônoma) é realmente um país à parte (infelizmente mais conhecido pelo terrorismo do ETA), bem diferente de todos os clichês e imagens que temos da Espanha. É uma parada mais que obrigatória para os que curtem turismo gastronômico, arte, design e natureza exuberante. O País Basco histórico é formado por sete regiões tradicionais: quatro compõem Hegoalde (parte espanhola, dividida entre as províncias de Guipúscua, Biscaia, Álava e Navarra) e três compõem Iparralde (parte francesa, composta pelas províncias de Basse-Navarre, Labourd e Soule).

Abaixo, algumas dicas sobre três capitais de províncias bascas espanholas:  San Sebastián (capital de Guipúscua), Bilbao (capital de Biscaia) e Vitoria-Gasteiz (capital de Álava). De brinde, a charmosa Biarritz, que fica em Labourd, região da Aquitânia (sudoeste da França).

San SebastiánComeço com uma de minhas cidades preferidas na Espanha. Linda, San Sebastián lembra muito o Rio de Janeiro (tem uma baía, um Cristo e São Sebastião no nome), com praias deliciosas e paisagens naturais que contrastam com uma arquitetura bastante afrancesada (está coladinha com a frontière). Sofisticada, atualmente é o metro quadrado mais caro da Espanha (se não me engano, uns 3 mil euros/m2) e não é muito baratinha, não, pode se preparar. Mas o que eu mais gosto em Donostia (nome basco de San Sebastián) é mesmo sua oferta gastronômica.

San Sebastián

San Sebastián

Há até um ano era a cidade que reunia mais estrelas Michelin por habitante. Isso devido à grande quantidade de restaurantes laureados com a cotação máxima do guia vermelho (três estrelas). Comecemos por aí, então.

COMER: Todo o mundo só fala do catalão Ferrán Adrià (outro “três estrelas” com seu El Bulli), mas aqui na Espanha são os chefs bascos quem guardam a tradição da alta gastronomia. Se quiser dar uma diversificada no seu vocabulário de grandes cozinheiros, memorize o nome destes caras que brilham firmamento Michelin com três estrelas cada: Martín Berasategui, com o restaurante que leva o seu nome, chega a cobrar até €155 em seu menu degustação, enquanto Pedro Subijana comanda o Akelarre, onde o menu degustação custa €125. E o veterano Juan Mari Arzak divide suas criações com sua filha Elena no Arzak, onde as refeições variam entre €100 e €160. Para orçamentos mais enxutos, há outros dois também estrelados (com uma Michelin cada): Kokotxa (do chef Dani López)  e  Kursaal (outro do Berasategui), com menus abaixo dos 60 euros por pessoa. Reservas são fundamentais em todos. Mas se seu budget é ainda mais apertado, sua chance de conhecer a gastronomia basca está em uma peregrinação por bares de pintxos (petiscos típicos bascos, quase mini-esculturas gastronômicas normalmente equilibradas por um palitinho). Um imperdível é o escondidinho e lotadíssimo La Cuchara de San Telmo ( pintxos entre €2,60 e €3,20), famoso por seus txipirones (um molusco do mar Cantábrico) salteados com queijo de cabra, suas kokotxas de bacalhau com tempura ou o carro-chefe da casa: foie salteado com compota de maçã. Peça também o txacoli, espécie de vinho branco opaco, ou um zurito (chopp pequeno). Outra dica baratinha é Txepetxa (Calle de la Pescadería, 5; pintxos em média por €2), que também serve raciones (porções) e banderillas (espetinhos)  e o Tamboril (preço médio de pintxo: €1,60). Bem menos salgado, né?

Pente do vento

Pente do vento

PASSEAR: Donostia equilibra construções góticas como a Iglesia de San Vicente com intervenções modernas como o Pente do Vento, escultura de Eduardo Chillida que fica no fim da Playa de Ondarreta. Só que as areias mais frequentadas são as Playa de la Concha, é lá onde fica a galera.  A elegância da cidade dá pinta à beira do Rio Urumea, com mulheres de salto alto e homens de txapela (espécie de boina típica do País Basco). Esse rio desemboca na bonita Playa de Zurriola.

Imperdível ver a cidade do alto, de onde se pode admirar seus jardins cuidados e ruas limpas. Para isso, pegue o funicular do Monte Igueldo ou suba o Monte Urgull, na outra extremidade desta cidade – que alcança o ápice de seu glamour no verão, quando rolam o Jazzaldia (Festival Internacional de Jazz) e o badalado Zinemaldia (Festival Internacional de Cinema).

Vista do Monte Igueldo

Vista do Monte Igueldo

DORMIR: Fiquei no Donosti@ B&B, que você encontra no site do Hostelworld. Super cêntrico, confortável, com quartos de casal e ainda conta com a Luz, uma das propietárias, que nos recebe com várias dicas e uma listinha de lugares para comer (bem maior que a acima) excelente.

BilbaoTodo mundo conhece Bilbao pelo Museu Guggenheim, mas esta cidade é uma graça também por seu metrô moderno (projetado por Norman Foster), seus trams (bondes) elétricos e outros elementos arquitetônicos bacanas. Ah, claro, os pintxos também brilham por lá.

Algumas curvas do Guggenheim

Algumas curvas do Guggenheim

PASSEAR: A primeira parada de todos costuma ser mesmo o Guggenheim, que, para muitos, é mais bonito por fora que por dentro. Bom, é verdade que, além da ousada arquitetura (obra do canadense Frank Gehry), do lado de fora estão a famosa e gigantesca aranha de bronze “grávida” Maman, de Louise Bourgeois, e o cachorrinho feito de begônias Puppy, de Jeff Koons, que sempre rendem fotos legais. Mas lá dentro há obras de Picasso, Mondrian, Kandinsky, Miró e Paul Klee. Vale a pena entrar.  De uma de suas laterais se pode ver a modernosa Puente de la Salve. Outra ponte de arquitetura moderna é a Zubizuri (do Santiago Calatrava, o mais famoso arquiteto espanhol), por onde você pode passear a pé. Ao sair dela (na outra margem da Ría de Bilbao, oposta ao museu), seguindo reto pela rua, você vai dar na entrada do funicular de Artxanda, monte de onde se pode ter uma vista completa da cidade. Também são bonitinhos o Museu de Bellas Artes e o Euskal Museoa (Museu Basco), que conta a história de Euskadi, além de reservar um tempo para passear pelas margens da Ría Bilbao.

'Maman', de Louise Borgeois

'Maman', de Louise Bourgeois

COMER: Na parte antiga (casco antiguo) de Bilbao, você encontra a Catedral de Santiago, a Plaza Unamuno e também a Plaza Nueva, onde há uma boa concentração de bares com pintxos e raciones deliciosas. Alguns fazem uma combinação de um certo número de pintxos e duas taças de vinho, ótima pedida. O mais conhecido da praça é o Café Bilbao. Para uma refeição completa no coração do Casco Viejo, tente o La Deliciosa.

Pintxos do Café Bilbao

Pintxos do Café Bilbao

DORMIR: Fiquei no Hotel Bilbi, que não tem nenhum grande atrativo, mas tinha um preço legal. Tinha acabado de ser reformado e estava bonitinho. Fica no Casco Viejo. Só que Bilbao, ao contrário da maioria das cidades espanholas, não se destaca muuuito pelo seu centro antigo, então eu sugeriria tentar hospedar-se perto do Guggenheim, no bairro de Abando. Tanto o Bilbi quanto os hotéis de Abando você encontra no Hostelworld.

Vitoria-GasteizA pequena capital de da província de Álava pode ser explorada em uma day-trip. Fomos até lá de Euskotren, a rede basca de trens (nada a ver com a Renfe), desde Bilbao. Também dá pra ir de ônibus, são só 50 minutos até Vitoria. É conhecida como a cidade mais arborizada da Espanha (eu duvido, mas é verdade que tem bastante verde) e, devido à umidade, faz mais frio lá que nas outras capitais bascas. Isso quer dizer que você pode sentir falta de um casaquinho, mesmo no verão.

Muito verde e umidade

Muito verde e umidade

PASSEAR: Quando fomos chovia muito (aliás, chove muito no norte da Espanha, é bom ter uma capa ou guarda-chuva à mão) e não pudemos passear muito pela cidade. Nos enfiamos logo nos museus, como o moderno Artium, que foi uma boa surpresa com seus quadros de Picasso, Dalí e Miró. O Museo de Bellas Artes também é bonitinho, mas se só tiver tempo pra um, vá ao Artium. Tomara que você dê sorte e possa apreciar sem chuva o Casco Viejo da cidade, com a Plaza de la Virgen Blanca, as igrejas de San Miguel e San Pedro e a catedrais de Santa Maria e Maria Inmaculada.

O Artium e muita chuva

O Artium e muita chuva

COMER: Como passamos apenas algumas horas em Vitoria-Gasteiz, só comemos em um lugar, o Bar 7 (calle de la Cuchillería, 3), que fica no Casco Viejo, com um menú del dia de uns 10 euros. Também tem pintxos e sidra, que não tem nada a ver com a espumosa Cereser do despacho de ano-novo. A sidra espanhola lembra muito a cider inglesa e é uma bebida obtida da maçã que só faz espuma quando é servida no copo (tem toda uma técnica). As melhores são as bascas e as asturianas. Volto a falar da sidra quando fizer um post sobre Astúrias.

Biarritz – E aqui vai, de échantillon, um pedacinho do País Basco francês para coroar esta viagem. Biarritz fica a uns 30 km de San Sebastián e é um dos lugares mais bonitos que já visitei na vida. Sofisticada, a cidade é para  arruinar financeiramente qualquer um. Foi o escritor Victor Hugo quem “descobriu” esta então vila de pescadores nos Pirineus Atlânticos, suas pedras e seus famosos rochedos em 1843. Tempos depois, a nobreza europeia desembarcou ali e construiu boulevards, praças e edifícios art-déco. Simpaticíssimos e super educados, os habitantes de Biarritz são outro atrativo desde charmoso balneário. De Paris, tem um TGV até lá. Saindo da Estação de Montparnasse ou de Austerlitz, o trem leva de cinco a sete horas para chegar e há bilhetes de ida e volta a partir de 60 euros.

Place Georges Clemenceau: O discreto charme da burguesia... francesa

Place Georges Clemenceau: O discreto charme da burguesia... francesa

Aqueles dias não foram de muita sorte pra gente. Era Semana Santa e, depois da chuvarada em Vitoria, chegamos debaixo de uma tempestade fortíssima e um friiiio danado a Biarritz. Até nevou, coisa rara por ali em pleno abril. Por isso, se puder, vá depois de maio (ou no verão, se estiver com um dinheirinho sobrando), para tentar aproveitar as praias. Nós ficamos só com o visual e mesmo sem colocar o biquíni valeu muito a pena.

PASSEAR: A praia mais conhecida é a  Grand Plage e de lá você pode ir até o Phare de Biarritz (são 248 degraus até o topo), passeando pelo Boulevard du Général De Gaulle. Fique atento ao caminho, que passa pelo suntuoso Casino Municipal, pela Église Alexandre Newski (igreja ortodoxa construída por aristocratas russos antes da Revolução Soviética) e pelo histórico Hôtel du Palais, originalmente erguido em 1854 por Napoleão III para ser seu palácio de verão. Descendo pelo Sentier des Vagues você dá nas areias da Plage Miramar, de onde se pode observar a Roche Ronde. (“Rocha Redonda”, que lembra uma baleia).

Hôtel du Palais

Hôtel du Palais

Também é legal pegar (a pé) a Avenue du Maréchal Foch para ver o Cinéma Le Royal e o Jardin Public, simpático quarteirão verde que está em frente à Gare du Midi. Esta antiga estação de trem foi convertida em Palais des Festivals e hoje abriga diversos tipos de espetáculos.  Outro roteiro bacana começa na Place de Bellevue, passando logo ao mirante de mesmo nome. Vários rochedos fazem parte da paisagem, que continua ao longo do Boulevard du Maréchal Leclerc. Se der, dê uma descansada no banco ao lado da Église de Sainte-Eugénie, de onde já é possível ver o Port des Pêcheurs, vila de pescadores com cabanas e casinhas. De lá, você pode ir ao Rocher de la Vierge, rochedo mais famoso da cidade, acessível por uma ponte. Uma estátua branca da Virgem Maria coroa a pedra. Ali perto tem o Musée de la Mer, grande aquário com 24 tanques com a fauna e flora da região.

A luta dos rochedos com o mar

A luta dos rochedos com o mar

COMER: Reserve uma de suas manhãs (ou todas) para tomar café nas Halles Centrales, o mercado municipal de Biarritz, onde vale provar um pouquinho de cada produto oferecido nas lojinhas. Há chefs espanhóis que cruzam a fronteira só para comprar neste mercado. Guarde um espaço na mala para as guloseimas típicas da região da Aquitânia que estão à venda por lá. Entre elas, o presunto de Bayonne, os queijos de cabra e a gostosa geléia de piments d’ Espelette (pimentão vermelho de Espelette), que vai super bem com aperitivos. Procure também de souvenir o patxaran (licor feito com semente de anis, ameixa silvestre e baunilha).

Halles Centrales

Halles Centrales e a bandeira do País Basco

Nós almoçamos uma saladinha e uma quiche no Miremont, que fica no coração da cidade, a Place Clemenceau. Mais conhecido por suas guloseimas, vale a pena economizar as calorias no prato principal para cair de boca nos chocolates e doces de lá, que são de enlouquecer qualquer um. Não deixe de incluir o rocher na sua lista.

À noite, vale a pena dar um passeio pela Rue du Port-Vieux, que está repleta de bares e restaurantes. Por ali, é comum comer crepes (custam de três a nove euros) ou tábuas (asiettes) de queijos e frios por dez euros, em média. A Crêperie Sel et Sucre pode satisfazer seus desejos neste sentido. Não deixe de passar no Planete Musée du Chocolat, museu que explica a tradição chocolateira da região (e ainda tem degustação no fim!).

DORMIR: Ficamos em um honesto hotel chamado Centre Biarritz. Não tinha café-da-manhã, mas era um dois estrelas bem-localizado.  Também o encontramos no Hostelworld.

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Personal Trip

About the Author

Clarissa Vasconcellos

Depois de três anos morando na Europa, Clarissa foi multada ao voltar ao Brasil. Motivo: excesso de bagagem. Mas não se arrepende. Afinal, eram muitas histórias e dicas para trazer na mala e ela não queria deixar nenhuma para trás.

4 Respostas para “ País Basco: ongi etorri! ”

  1. Estive em Bilbao, San Sebastian, Azkoitia e Azpeitia em Janeiro/2011 á trabalho, é realmente sensacional. Destino obrigatório para quem curte gastronomia. Recomendo!

  2. Oi Cláudia,

    Acabei de volta de San Sebastian, passei 4 dias com o meu marido. M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A!!!! Volte apaixonada…

    bem, escrevo para dar uma dica: o camping igueldo (www.campingigueldo.com) de San Sebastian. Quando o meu marido começou a ver os preços por lá quase desanimamos, mas como estávamos em plena temporada de promoçoes pela europa, compramos a barraca, o colchão infável e mais alguns gadgets e lá fomos nós (eu, desconfiada, o maridão superanimado por relembrar a adolescência, eu acho..). Acampar na Europa é uma experiência fantástica. o camping é super astral, têm todos os tipos de pessoas e o melhor, fica baratinho, dá para investir no que realmente vale a pena: comidinhas, claro!

    Um abraço!

    Julia

    ps: cheguei aqui através do sobressalto

  3. dicas anotadas!!!! Vamos pra lá!!!!

  4. huumm… fiquei com vontade… :)

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