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Eu já… dormi no Deserto do Saara

Quando saí do Brasil rumo ao Marrocos em abril de 2007, uma coisa era certa: eu tinha que ir ao Saara e tinha que andar a camelo. E num passeio de três dias, que cabia perfeitamente num bolso mochileiro, vivi uma das minhas experiências mais felizes de viagem.
Pensar em deserto traz à minha mente imagens áridas, amareladas e aquele ar trêmulo que se ressente do peso do calor. E eu me deparei com tudo isso no Saara, mas no caminho até lá também vi neve, um vale incrível à beira do rio e senti um bocado de frio.

Neve no caminho do deserto: inesperado

Neve no caminho – De Marrakech para o Saara, é preciso encarar uma estrada cheia de curvas acentuadas, de onde se vê a neve no pico das motanhas. Acordar de repente no meio da viagem – a soneca depois do despertar antecipado é inevitável – chega a ser surpreendente.

Por que esse começo de viagem é o oposto da imagem que vem à mente quando se pensa em deserto: é muito verde, um tanto frio e traz belissimos picos nevados emoldurando a paisagem. Mas logo o verde sai de cena e dá lugar à areia rosada que colore Marrakech. Rápida parada para conhecer o kasbah de Aït Benhaddhou e uma parada tão rápida quanto para o almoço em Ouarzazate.

Sessão de música no hotel

Jam session marroquina – O primeiro dia de viagem acaba no Vale do Dades, possivelmente o lugar mais frio em que eu já dormi na vida mas onde tive o prazer de presenciar funcionários do hotel numa jam session descompromissada de autêntica música marroquina. (Tem um pedacinho disso e mais de viagens nesse vídeo, amadorzão)

O segundo dia começa tão intenso quanto o primeiro e mais impaciente: em algumas horas chegaremos ao deserto. Assim, o curto passeio por Tineghir – com uma visita (aka tentativa de extorsão) a uma fábrica de tapetes – e a visita ao Gorges du Todre não servindo nem como aperitivo para nossa ansiedade.

A caravana se organiza

O deserto pede silêncio – Mas a paisagem anuncia que o deserto está chegando. O verde vai rareando, pequenas dunas vão surgindo à beira do asfalto e de repente a van para em Merzouga. Agora seremos nós, os dromedários (pois é, o Marrocos não é terra de camelos) e nosso guia berbère para nossa noite no deserto.

Éramos 11 numa caravana multicultural que me deixava de boca aberta com seu reflexo na areia. O deserto convida ao silêncio e depois da excitação inicial do começo da ‘cavalgada’ todos perceberam isso e passaram a ouvir o vento, o que fez a nossa chegada ao acampamento, no entardecer, ainda mais especial.
No alto da duna – Nosso acampamento resumia-se a duas tendas: meninas para um lado, meninos para o outro. Banheiro não existia e a água foi levada por nós mesmos. Era uma excursão de mochileiros, afinal, mas onde comemos o tajine mais saboroso que provamos em toda a viagem.

Silêncio no caminho entre dunas

Depois do jantar, um tour pelas redondezas culminando na sofrida subida à duna altíssima em cuja base ficavam nossas tendas. Com meus pés afundando na areia mais do que eu gostaria, pensei em desistir várias vezes, mas nem o guia nem o restante do grupo deixou. A insistência me proporcionou um raro momento: sentada no topo da montanha de areia, ouvindo apenas o silêncio, tive a certeza de que ninguém no Brasil sabia onde eu estava àquela hora.

Solidão acompanhada – Pode parecer angustiante, mas é reconfortante ter um momento só para você no mundo. Enquanto pensava nisso e curtia o prazer de uma solidão acompanhada, admirava bem ao longe as luzinhas da fronteira do Marrocos com a Argélia.
O sono em si, confesso, não foi dos mais renovadores: a cada movimento no tapete que me servia de cama, sentia ‘toneladas’ de areia ao meu redor. Também tenho que admitir que meu lado medroso ficava sobressaltado a cada rajada de vento um pouco mais forte ou movimento dos nossos ‘camelos’.

Amanhecendo no deserto

Amanhecer no deserto – Mas a noite passa rápido e o despertar no deserto acontece quando ainda nem amanheceu direito. Ainda inchados de sono e sem conseguir fazer uma toilette decente, tomamos o rumo de volta para casa. E vimos, com o despertar do sol, um deserto em tonalidades bem diferentes das que havíamos visto na chegada.

O Saara fica a dez horas de distância de Marrakech. A viagem de três dias que nós fizemos é um bocado corrida e às vezes entediante. O ir e vir em cima de um camelo também foi desconfortável para muitos do nosso grupo. Mas essa experiência vale cada grão de areia no rosto. Eu recomendo sem dúvida; mas se você puder pagar, com mais conforto.
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Personal Trip

About the Author

Flavia Motta

Flávia tem viagens planejadas para os próximos cinco anos, pelo menos. Só tem um porém: todas precisam de uma parada em Paris.

Uma resposta para “ Eu já… dormi no Deserto do Saara ”

  1. Muito legais as fotos ! Super bacana a iniciatica de compartilhar isso com os interessados no assunto ! Parabéns!

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