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Cuba, o país que me transformou em viajante

O muro mais fotografado da ilha. Clique roubado do blog Política Ficción.

Andava evitando este post porque escrever qualquer coisa sobre Cuba não é fácil. É um país complexo, que move paixões e incita a polêmica (mesmo entre gente que nunca pisou na ilha), o que não é exatamente a proposta deste blog. Ninguém que vai a Cuba volta igual – bom, exceto os turistas que descem em Varadero achando que dá no mesmo estar ali, em Cancún ou nas Bahamas. Conheço pessoas que amaram e voltaram militantes de Fidel e outros que odiaram (porque foram assaltados ou porque se revoltaram com a situação da população). Não existem duas Cubas, como se costuma dizer, com base na divisão financeira feita pelas duas moedas oficiais da cidade, o peso conversível, dos turistas, e o peso cubano, da população. Existem muitas mais e daí vem a dificuldade de falar desse lugar.

E agora, Fidel?  (Foto: AP)

O que me motivou a dar meu humilde testemunho (acompanhado de dicas, porque é para isso que estamos aqui) foi a tristeza que senti há um tempo com tantas notícias ruins sobre o país. Agressões a pessoas que simplesmente escrevem o que pensam (o blog desta mulher é um dos mais perseguidos*), a ameaça de morte que os exilados em Miami fizeram a um cantor por participar em um show de conscientização em Havana, a possibilidade de o governo de Raúl Castro cortar a célebre libreta (cesta básica que o governo dá gratuitamente à população) sem aumentar os salários…

Por que estou falando disso tudo? Porque não se pode ir a Cuba ignorando os fatores políticos, sociais e econômicos de lá. Abaixo, algumas dicas gerais do país e, em breve, vou postar dicas específicas sobre Havana, Santiago de Cuba, Varadero e day trips.

TURISTA OU VIAJANTE?

Foi em Cuba onde eu vi pela primeira vez a diferença clara entre ser turista e viajante. Porque você pode fazer dois tipos de viagem ao país, de acordo com o seu perfil:

– O turista, em geral, fica em hotéis (a maioria afastados do centro) ou resorts, paga uma grana em táxis, come comida internacional nos restaurantes mais confortáveis, assiste aos shows de rumba caídos, visita fábricas de puros (charutos) ou é enganado pelos vendedores que os vendem falsificados na rua.

Moros y cristianos – Junto com o frango, são, literalmente, o “feijão-com-arroz” diário dos cubanos (Foto do portal Comunidad Latina)

– O viajante tenta furar a espessa bolha turística que nos impõem (depois da queda da URSS, o turismo se tornou uma das principais fontes de divisas do país). Para começar, ele fica hospedado em casas particulares de cubanos (guias como o Lonely Planet dão sugestões de gente que aluga legalmente seus quartos), tenta comprar peso cubano e se ferra (é proibido), se mete nas máquinas (táxis coletivos) ou até mesmo nos lotados ônibus, prova os moros y cristianos (feijão com arroz misturados) com mariquitas (chips de banana) e frango em um dos paladares (restaurantes familiares inspirados no Paladar, o estabelecimento fictício de Regina Duarte na novela Vale Tudo) e viaja pedindo carona nos caminhões que levam os trabalhadores em sua boleia. Mas, mesmo assim, pode sair de lá sem ter entendido ou penetrado na alma cubana.

– Também tem aquele visitante que mistura os dois estilos. Fica em casa de cubano, mas não abre mão de mergulhar em Varadero, um dos pontos mais legais do mundo para ver a fauna e flora marinha. Outros contratam em hotéis e agências locais day trips que incluem visitas a vários pontos interessantes e históricos, que muitas vezes ficam de fora por falta de coragem de encarar as estradas ruins e com sinalização confusa do país (ou seja, alugar um carro pode acabar em perrengue). Fica a seu critério.

NÃO SE DISCUTE

– A prostituição é bem assustadora, principalmente a de menores de idade, por toda parte em Havana, presente de restaurantes a monumentos. No Brasil há muita também, alguém vai argumentar, mas eu nunca vi uma menina de 16 anos oferecendo seu “serviço” a um turista alemão, que tinha o triplo da sua idade, dentro do principal museu da cidade. No caso, foi no Museu da Revolução. A diferença para outros países onde há turismo sexual é que, a poucos metros da tal cena, vi as meninas que tomam conta do acervo do museu lendo Dostoievski e Stefan Zweig. Também nunca vi isso no Brasil – nem em nenhum museu da Europa. Contradições da ilha. Também vale dizer que, para muitas meninas (não todas), a prostituição não é nada de outro mundo, é como “ficar” com um carinha e tudo bem.

– Às vezes dá a impressão de que os cubanos não querem fazer amizade sem interesse. De fato, há muita gente que se aproxima com a intenção de conseguir algo, seja vender um charuto ou conseguir filar uma cerveja só por conversar com você. Mas também se aproxima gente carinhosa, que pira quando descobre que somos brasileiros, que pede para escrever (carta!) e chama para jantar na própria casa. Os do primeiro caso não são necessariamente gente má e sim pessoas que querem aproveitar os turistas como qualquer “prestador de serviço”, ainda que tal “serviço” não seja convencional e envolva afeto. Para remediar isso, recomendo se hospedar na casa de cubanos, a melhor maneira de buscar uma relação sincera, como já tinha recomendado nossa amiga Gabi Lomba no Outros Viajantes.

DADOS PRÁTICOS E CURIOSIDADES

– Mais alguns dados sobre o país: Cuba quase nunca produziu nada. Importa cerca de 70% dos seus alimentos e também muitos de seus bens (herança da dependência da URSS), daí a voracidade da indústria turística. E dá para sentir isso logo ao chegar, quando já vem a primeira tentativa de nos colocar na “bolha”: No aeroporto, você vai trocar seus dólares ou euros pelo peso conversível (peso convertible), uma moeda inventada para os turistas por Fidel Castro (quando ainda estava no cargo de presidente). O peso conversível tem uma taxa de 15% (quando fui era de 10% e a paridade era de 1 para 1), ou seja, 100 dólares valem 85 pesos. A medida salgada foi uma maneira que Fidel encontrou de reter algo dos dólares que entravam na ilha e acabavam diretamente (de forma ilegal ou não) nas mãos dos cubanos.

Visto – Os brasileiros precisam de visto e isso é meio chato. Como não conhecíamos ninguém que tivesse ido de maneira aventureira na época, pedimos ajuda para uma agência. Não sei se mudou, mas o visto só era emitido se você tivesse alojamento fechado por lá. Valia hotel, albergue ou casa de cubano (sendo que este precisa mandar uma carta-convite). Cuidado se fechar esse assunto por agência. Para garantir o visto, pedimos dois dias de hotel (nos outros ficamos em casas de cubanos) e nos colocaram em Miramar, um bairro longe do centro, em uma das partes modernas de Havana, o que não foi nada prático.

Flagrante de furacão no litoral da ilha.

Novelas – Os cubanos adoram nossas novelas, inclusive os homens. Quando fui estavam passando ‘A casa das sete mulheres’ (era minissérie, mas eles chamavam de novela) e as pessoas pediam poramordedios para não contar se a personagem da Camila Morgado, uma mulher fictícia, terminava com o Garibaldi (!), algo impensável segundo a História. Muito divertido.

Salários – Quando fomos, o mais alto da ilha era o salário de um médico, que ganhava o equivalente a uns 20 dólares. Acredito que esse valor já mudou, mas não imagino que tenha aumentado muito. Como os cubanos contam com serviços básicos gratuitos (o que não significa que sejam sempre bons) e uma cesta de alimentação (a libreta), ninguém passa necessidades graves. Mas, com essa média de salários, dá para entender como eles se sentem quando veem um gringo gastar 40 dólares em um jantar.

Furacões – A temporada de furacões vai de maio a setembro, pegando o verão. Como o clima da ilha lembra em grande parte o do Brasil, recomendo ir fora desse período. Fomos em janeiro, em pleno inverno, e conseguimos ir à praia sem a preocupação de sermos surpreendidos por um ciclone ou tempestade tropical. Só de noite fazia um friozinho e um casaco médio ou jaqueta já resolvem.

* Nota de atualização: este post foi escrito quando nem imaginávamos que Yoani Sánchez, a dona do blog citado e ainda uma ilustre desconhecida de grande parte de nosso público em 2009, pudesse vir um dia ao Brasil, muito menos causar tanta confusão.

Clique aqui para imprimir este post.

Personal Trip

About the Author

Depois de três anos morando na Europa, Clarissa foi multada ao voltar ao Brasil. Motivo: excesso de bagagem. Mas não se arrepende. Afinal, eram muitas histórias e dicas para trazer na mala e ela não queria deixar nenhuma para trás.

11 Respostas para “ Cuba, o país que me transformou em viajante ”

  1. Dicas muito úteis. Certamente meu próximo destino internacional será a ilha de Cuba. Como sociólogo, e para ajudar talvez a compreender porque Cuba talvez seja o único lugar onde se diferencia viajante de turista, é o fato de que em Cuba, onde vige o socialismo, e onde as energias são voltadas para o bem estar social, e não individual, (e por isso talvez o mundo capitalista a odeie e a bloqueie economicamente – fonte principal da pobreza da ilha – o lugar onde segurança, educação e saúde são direitos, e muito bem assistidos, e não mercadorias acessiveis apenas para quem as pode comprar), é que em Cuba, onde o processo de extinção das classes sociais evidencia ainda mais as diferenças de classes entre viajantes e turistas.
    Mas, para compreender a realidade cubana, não é necessário visitar Cuba, mas sim compreender os processos políticos que a colocar no lugar onde ela se encontra. Um povo humilde e trabalhador que, com algumas exceções, como ‘a mulher’ citada na reportagem, resolver viver para a sociedade, e não usá-la para viver.

  2. Degenerados liberastas ocidentais e idiotas úteis que não conhecem a criminosa ditadura comunista e para conhecer tal ditadura, devem ficar para sempre em Cuba, seus covardes! A Rússia e Europa do Leste são a Tumba do comunismo! Hoje o comunismo serve só para Panacas Subdesenvolvidos do miserável terceiro mundo, cheio de Analfabetos e Favelas como o Brasil!

  3. Estou viajando para cuba dia 04 de novembra 2013, esta minha viajem e unicamente para ver a musica cubana que sou fasinado pelo ritimo da salsa, mora no alto santo Terezinha no recife freguento o clube bela vista que faz festas só com o ritimo cuba, naqual passei aminha vida toda juntando dinheiro para ir a cuba estou muito feliz.

  4. Olá, Denise.
    Caso esteja achando as casas de família caras, considere a possibilidade de hospedar-se em um hotel. Consegui fazer reservas através do site Decolar.com. Achei bastante conveniente.
    Boa viagem!
    Abraços,
    Daniela

  5. Curti o relato. Estou indo para lá em fevereiro como viajante, e não turista.
    O relato ajudou bastante.
    Mas estou achando – mesmo as casa de família – muito caro!

  6. Estou planejando conhecer a Ilha em janeiro de 2013.
    Amei as dicas e graças a vcs. já escolhi tb o mes.
    Agradecida pelas dicas

  7. Oi, Cris.

    Olha, eu fiquei em Miramar os dois primeiros dias porque para ter o visto você precisa de uma reserva qualquer de hotel ou convite de um cubano e a agência nos reservou um nesse bairro. O problema é que Miramar, apesar de bonitinho (várias embaixadas ficam nele), é afastadíssimo do centro (o que nos obriga a pegar táxi) e meio deserto à noite. Você nao achou nenhum hotel por Habana Vieja, que fica no centro? Seria mais prático.
    A cidade em geral me pareceu segura, mas nao ficávamos circulando a esmo à noite nem em lugares desertos.
    O turismo em Cuba nos empurra quase o tempo inteiro para uma “bolha” (hotéis afastados, táxi, passeios em que você nao conhece cubanos…) que dificulta o contato com as pessoas locais. Foi um pouco difícil “rompê-la”. Só conseguimos ficando em casa de cubanos e fazendo coisas que eles fazem, como entrar nos táxis coletivos (que eles chamam de ‘máquinas’). Mesmo assim nao nos sentimos muito integrados. Digo isso porque imagino que seu marido queira conhecer e conversar com eles e para vocês se prepararem e já irem pensando em como se aproximar com um olhar menos turístico. Eles adoram presentinhos, sim, nao só sabonetes, isqueiros e canetas, mas coisas do Brasil também fazem sucesso, além de chocolatinhos, doces, balinhas. O que você achar bacana pode levar que eles vao gostar. Eu fui em janeiro também e foi uma delícia, era fresquinho, mas fazia calor de dia. Leve um casaquinho para usar à noite. Fui em 2005 e de lá pra cá muita coisa mudou com o Raúl, entao, adoraria ouvir seu relato depois que vocês voltarem. 🙂 Boa viagem!

  8. Olá Clarissa

    Eu, meu marido e nosso filho (10 anos) estaremos conhecendo Havana em Janeiro de 2011. Este é um presente e um sonho a ser realizado pelo meu marido, um comunista apaixonado. Como estamos viajando com uma criança achamos melhor nos hospedar em um hotel, no caso, Miramar. Ficaremos lá por 5 noites. O maior interesse é conviver com o povo cubano. Li em algum site que os cubanos adoram receber sabonetes, canetas e isqueiros. Vc sabe algo a respeito? A cidade é realmente segura?

    Muito obrigada pela boa vontade em dividir conosco suas impressões. Acho que pelo que vc escreveu iremos adorar!
    Bjs
    Cris

  9. Vou tentar viajar para Cuba em breve e ficar na casa de amigos. Quero mais dicas se possível.

  10. Ai, meu Deus!

    Cuba é a numero 1 no ranking de destinos!!

    Adorei, Clá. Me deixou com ainda mais vontade.

  11. Adorei esse relato.

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