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Espanha por uma temporada – Manual básico

Estação de metrô da Cidade Universitária, em Madri. Muitas idas e vindas.

Na primeira vez em que eu pisei na Europa, pensei: quero viver aqui. Os cinco anos seguintes foram uma mistura de preparação psicológica e financeira para realizar este desejo. Muitas inscrições de bolsas e pesquisas na internet depois, eu aterrissava no aeroporto de Barajas (Madri) de mala e cuia, pronta pra uma temporada que acabou se estendendo mais do que eu previa. Como eu, há centenas de brasileiros que agora mesmo estão aproveitando essa mistura de ano sabático com aprimoramento na Europa.

O primeiro conselho que dou para quem tem vontade de estudar fora é ter paciência e organização. Paciência para procurar bolsas de estudos (a melhor maneira de viver fora), como as que oferece a Fundación Carolina, e organização para juntar dinheiro e procurar cursos alternativos caso a bolsa não saia. O ideal é sempre investigar nos sites das universidades mais conhecidas da cidade onde você quer viver ou então em buscadores de cursos dos países, como o e-magister, que vasculha bem as opções da Espanha, por exemplo. Escreva para os centros, converse com gente que fez o curso e peça material de divulgação (a maioria das instituições envia pelo correio) para ter certeza se vale a pena. É uma trabalheira danada, mas é preciso ter garantias de que seu investimento será válido – o que não faltam são cursos picaretas por toda a Europa.  Se possível, escolha um que inclua um estágio na área (em espanhol, prácticas), porque ter a experiência de trabalhar no exterior também é interessante.

Cidade e curso escolhidos, chega a hora de reservar a passagem. As agências de turismo costumam conseguir bons preços para estudantes, mas uma boa busca na internet (sites como o Trabber ajudam muito) pode garantir passagens mais em conta. Na hora de fazer o seguro saúde (exigido por todos os países da União Europeia), prefira um no estilo dos que temos no Brasil, com carteirinha e livro com nomes e endereços de médicos credenciados. Fiz a besteira de escolher um que era de reembolso (o francês AVI, que não recomendo a ninguém) e até hoje estou esperando os 200 euros que gastei com atendimento médico na Europa. Você também pode se informar no INSS se o país para onde você vai tem convênio com o Brasil. Nesse caso, você terá direito a atendimento na rede pública de seu destino.

VISTO E DOCUMENTOS

Animação no último dia de aula. Valeu o sacrifício de encarar tanta burocracia.

Tão importante quanto garantir logo a passagem é ver qual é a documentação necessária para passar uma temporada em outro país. Isso é pra ontem, porque os vistos de estudos costumam demorar no mínimo um mês, dependendo do seu destino. Procure o consulado mais próximo e informe-se sobre os trâmites.

No caso da Espanha, a burocracia pode ter duas fases. A primeira, no Brasil, exige até que você faça exame de sangue e raio-X para conseguir o visto, entre outros documentos. Se seu curso for inferior a três meses, não se preocupe. Esse é o limite máximo que se pode permanecer na UE como turista, logo, não é necessário ter visto. Entretanto, acho que vale uma passada no consulado devido aos problemas que os brasileiros vêm experimentando na entrada na Espanha, Grã-Bretanha e França ultimamente. Eles vão lhe orientar com respeito à papelada que vale a pena levar (como comprovante do curso, mínimo de dinheiro em cash, garantia de hospedagem etc.).

Se seu curso for superior a três meses, é necessário tirar o visto. No caso de seu curso ter máximo seis meses, virá no seu passaporte um visto que diz que você tem o direito de ficar no país o tempo do seu curso (exemplo: 180 dias). Pergunte se o visto é de entradas múltiplas para ter certeza de que pode circular por outros países da UE.

Já os cursos de mais de seis meses de duração necessitam de outro tipo de visto e é esse que tem uma “segunda fase”, a ser realizada na Espanha. Em seu passaporte virá um selo que diz que você tem um visto de três meses. Não se assuste. Isso é porque, ao chegar à Espanha, é necessário tirar um documento de identidade espanhol, o NIE (número de identificação de estrangeiro), que terá validade de no máximo um ano (renovável). Você deve resolver isso nada mais pisar na Espanha, porque o trâmite pode durar até três meses, ou seja, você pode ficar ilegal no país se não der entrada o mais rápido possível. O primeiro passo é marcar a cita no telefone 902565701. Não adianta ligar do Brasil, isso você tem que fazer da Espanha mesmo. Eles vão lhe informar de toda a documentação necessária para conseguir seu NIE de estudante e, depois de dar entrada, é só esperar. Algumas universidades, como a Complutense de Madrid, se encarregam dessa burocracia e tiram o documento para seus alunos estrangeiros (é preciso procurar a Oficina del Estudiante Extracomunitario dentro do campus), mas só no primeiro ano de curso. Caso o seu dure mais que isso, é sua responsabilidade renová-lo.

Outros documentos também são necessários para sua estada fora. Alguns cursos da Espanha exigem um carimbo do Ministério da Educação Espanhol no verso do seu diploma (mesmo se você já tem o carimbo do Itamaraty e do consulado espanhol de sua cidade). Mas só faça isso se o curso exigir porque é um saco ficar na fila (é preciso chegar cedíssimo, quase de madrugada). No caso da Espanha, também é necessário o empadronamiento, que é uma espécie de registro de que você está vivendo no país, um papel que é necessário para outros documentos, como a seguridad social (caso você trabalhe por lá). Para empadronarse, é necessário levar o contrato de aluguel. Mais informações neste site. O empadronamiento também é uma garantia de que você passou um tempo no país, o que é válido caso você tenha que provar isso no Brasil ou queira pedir o arraigo, ou seja, a nacionalidade europeia depois de três anos (consegui-la é outra história, bem mais complicada).

Por último, um aviso com relação à carteira de motorista. Nossa CNH só vale durante três meses na Europa. Depois disso não podemos dirigir. Quem sabe que vai ficar por um bom tempo e quer dirigir (lembrando que há muitas opções de trens, ônibus e voos para cobrir sua vontade de viajar enquanto estiver estudando) pode solicitar o canje, ou seja, a troca de carteiras, que é autorizada na Espanha.  Depois de marcar uma cita (eles adoram citas, como se pode perceber), você deixa sua CNH na Jefatura Provincial de Tráfico de sua cidade e receberá uma europeia, que vale por dez anos. Mas, ao voltar ao Brasil, será necessário entregá-la para obter outra CHN.

ONDE VOU VIVER?

Procurar apartamento é uma trabalheira em qualquer lugar do mundo. Em um país estrangeiro, então, pode ser um desespero (muitos não alugam pra estrangeiros e já descartam a possibilidade de lhe conhecer ao perceber o sotaque). Mas com calma se pode encontrar um lugar para chamar de seu, sem perrengues. Se sua ideia for dividir com outros estudantes, pode ser mais fácil (e mais barato). No caso da Espanha, um quarto pode custar até 400 euros, dependendo do bairro e da cidade, com gastos incluídos. Mais que isso é absurdamente caro, não caia nessa. Para ter uma noção de preço, dê uma olhada nos principais buscadores de apartamentos e quartos, como o Segunda Mano e o Idealista. Também vale a pena estar atento aos cartazes espalhados pela universidade – sempre há alguém oferecendo apartamento ou quarto.

Tanto no caso dos quartos quanto no de um apê só para você, é possível que os proprietários (melhor negociar diretamente com estes porque as imobiliárias costumam cobrar um mês de aluguel de comissão e quem paga é o inquilino) façam algumas exigências. A principal é a de uma fiança, que pode ser de um a três meses de aluguel, que deve ser devolvida no fim do contrato. Alguns pedem aval bancário (fiança que fica depositada no banco e nesse caso podem pedir até seis meses!!!) ou aval personal, nosso famoso fiador. Ou seja, o ideal é encontrar alguém que peça só fiança. Se quiserem algo mais, negocie dizendo que pode pagar um ou dois meses adiantado, por exemplo. Os donos querem é ter confiança de que você pode pagar e normalmente estão abertos a mudanças nos requisitos.

Uma das muitas festinhas no apê com os flatmates.

No caso de Madri, recomendo escolher bairros perto do centro, mas não necessariamente no centrão (os arredores da Gran Via, por exemplo, ficam repletos de prostitutas à noite). Apartamentos próximos aos metrôs de San Bernardo, Argüelles, Goya, Serrano (mais carinhos), Retiro (perto do parque), Bilbao, Tribunal (perto dos bares de Malasaña), Santiago Bernabéu (perto da zona financeira) são alguns exemplos de zonas legais. Mas nada impede encontrar bons apês mais para o norte ou mais para o sul – ainda que eu prefira o norte, acho mais residencial, enquanto o sul está mais degradado. Procure dentro da zona A da cidade, mesmo que sua universidade fique fora dela. É que nos fins-de-semana você vai querer sair pela zona A, onde estão todas as atrações de Madri.  Veja o mapa do metrô para se situar melhor.

Para decorar a casa (sempre é preciso comprar alguma coisa) a loja preferida dos estudantes e jovens na Europa e Estados Unidos é a rede sueca IKEA, que oferece design moderninho, a preços quase ridículos, tudo o que você necessita para uma casa, desde um ralador de cenoura até um armário. Claro que muitas vezes a qualidade não é das melhores, mas pense que por uma temporada tá ótimo. Eu tive poucos problemas com produtos do IKEA, a maioria deles com panelas (que descascaram ou quebraram depois de alguns meses). Para todo o resto, a loja sempre foi uma maravilha.

TRANSPORTE E ROTINA

Para quem vai usar o transporte público com freqüência, vale muito a pena comprar o abono, que custa 46 euros (zona A) e dá direito a usar ilimitadamente a rede de metrô e ônibus da cidade. Se você tiver menos de 25 anos custa ainda menos (29,50). Mas se não precisar muito usar o transporte público, pode se virar com o bilhete de 10 viagens (9 euros), que é o que os turistas usam. Quase todas as grandes capitais têm um esquema desse tipo, pesquise bem antes de sair comprando bilhetes. Para aprender caminhos e melhores opções de metrô e ônibus, o site do Google Maps España é a melhor opção.

Entrada do Museu do Metrô - o melhor meio de transporte de Madri, com suas 14 linhas.

Lembre-se que você não está de turista e que é muito mais barato cozinhar em casa. Os principais supermercados da Espanha são os do grupo El Corte Inglés (SuperCor, OpenCor e HiperCor), que são os mais carinhos mas têm maior oferta de produtos. O Mercadona é uma opção barata, com variedade e com excelentes marcas blancas (produtos do próprio mercado). O Eroski tem um esquema parecido ao do Mercadona, enquanto o Dia e o Ahorra Más são os mais populares. Você ainda pode comprar em um dos muitos supermercados Carrefour espalhados pelo país.

Se tiver que comer fora vale dar uma olhada nas cafeterias e cantinas das universidades, que normalmente oferecem um bandejão honesto a preços estudantis. Por exemplo, na Universidad Complutense, onde estudei, era possível uma refeição completa (primeiro prato, segundo prato, pão, bebida e sobremesa) por cerca de 5 euros.

O país conta com muitas redes gastronômicas que podem ser uma opção mais econômica para o dia-a-dia. A Vips é a principal delas e conta com diversos restaurantes associados com opções de comida italiana (Gino’s), asiática (The Wok) e moderninha (Teatriz), entre muitos outros. Também recomendo o Delina’s, o Fast Good (restaurante de comida rápida criado pelo chef Ferrán Adrià), o Bocatta (mais comum no norte do país) e os bares de lanches Cien Montaditos e Lizarrán, além dos internacionais Maoz (de sanduíches e kebabs vegetarianos), Starbucks e Pans & Co. Ou seja, não há desculpa para se entupir de McDonald’s. Se quiser dicas de restaurantes e bares específicos (além de lojas de roupas) de Madri, clique aqui . E da Espanha, aqui. Um detalhe: os espanhóis costumam almoçar e jantar mais tarde que nós, brasileiros. Entre 14h e 16h e entre 22h e meia noite são os períodos mais disputados para comer.

TRABALHO? TÁ DIFÍCIL

Como bem se sabe, a Espanha foi um dos países que mais sofreu com a atual crise econômica. A previsão de desemprego para 2010 é de 24%, uma porcentagem absurda para um país de 46 milhões de pessoas. Os principais buscadores gratuitos de emprego (Infojobs, Infoempleo e Trabajos.com) estão transbordando de currículos. Se você está pensando em vir para trabalhar sem uma proposta prévia, leve em conta algumas questões:

- Vou com uma bolsa ou curso – Se você tem nacionalidade europeia, ótimo, tudo vai ser mais fácil. Se você não tem, mas providenciou toda a documentação necessária, tampouco terá problemas para entrar e viver no país durante o tempo de seu visto. Os estudantes podem trabalhar quatro horas por dia, mas o difícil é encontrar alguém que dê emprego atualmente (alguns bares e restaurantes aceitam), ainda mais por uma carga horária tão reduzida. Os que não contam com um passaporte europeu têm ainda mais dificuldades de conseguir um curro (trampo). Por isso vale a pena apostar em cursos que incluem prácticas, de preferência remuneradas.

- Não tenho curso nem bolsa, mas tenho nacionalidade europeia – Você não terá nenhum problema para entrar, viver e tirar documentos na Espanha. Mas vai disputar com espanhóis empregos que até então só imigrantes queriam. O mercado está paradíssimo em todas as profissões. Melhor pegar seu dinheiro e investir em um curso ou em uma viagem bacana.

- Não tenho curso nem bolsa e muito menos nacionalidade europeia – Então você é sério candidato a ser barrado já no aeroporto. Claro que você pode entrar como turista (a maioria faz isso) e, uma vez munido de uma passagem de ida e volta, dinheiro no bolso, emprego no Brasil e comprovante de hospedagem, dificilmente vão complicar sua vida. Mas, sem ter uma razão justificável para permanecer na Espanha mais de três meses (um curso, uma proposta de trabalho, ser cônjuge de europeu ou de alguém com visto, por exemplo), um imigrante extra-comunitário terá poucas oportunidades de viver bem.

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Personal Trip

About the Author

Depois de três anos morando na Europa, Clarissa foi multada ao voltar ao Brasil. Motivo: excesso de bagagem. Mas não se arrepende. Afinal, eram muitas histórias e dicas para trazer na mala e ela não queria deixar nenhuma para trás.

10 Respostas para “ Espanha por uma temporada – Manual básico ”

  1. Oi, Rafaela. Olha, eu já fui com visto de estudante e, na época, não podia entrar na Espanha antes. Não sei se isso se aplica a outros países da UE (não sei por onde você começaria sua viagem). Se eu fosse você entraria em contato com o consulado da Espanha logo para esclarecer, ainda mais porque estamos falando de um país que vem causando muitos problemas para viajantes brasileiros. Não que alguém vá te barrar com um visto, mas chegar antes é outra história. Abraços e volte aqui para contar. Boa viagem

  2. Tenho uma dúvida. Será que conseguem me ajudar:
    Vou estudar na Espanha a partir de setembro, mas gostaria de ir um mês antes para viajar pela Europa. É possível entrar como turista antes da vigência do visto de estudante e validá-lo depois da viagem na Espanha?

    Grata!

  3. Obrigada, Clarissa.

  4. Oi, Claudia. É isso mesmo, “comunidad” é o equivalente a condomínio. Quase nenhum lugar cobra isso separadamente, normalmente o preço já é com a comunidad.
    Bjs

  5. Olá Clarissa,
    Tenho olhada apartamentos para alugar no site idealista. Em alguns anúncios dizem que “gastos con comunidad incluidos”. Isto equivale ao condomínio em Português? Que gastos estão normalmente incluídos? Obrigada,
    Cláudia.

  6. Muito obrigada pela resposta, Clarissa. Valeu!

  7. Oi, Cláudia. Olha, na minha opinião, a vantagem de ir para uma cidade menor é que você encontrará menos estrangeiros na sua rotina e vai acabar tendo que falar espanhol de qualquer maneira, sem ter que usar o inglês ou o português (há muitos brasileiros vivendo aqui). Também é mais barato viver nelas. Mas, pela idade dos seus filhos, acho que eles gostariam mais de viver em uma cidade como Madri ou Barcelona. Uma opção bacana também é Salamanca, que é pequena, mas é conhecida como cidade universitária, ou seja, há muitos jovens pelas ruas, além de ser um dos principais centros de ensino da língua na Espanha. Qualquer dúvida, pode perguntar. Um abraço

  8. Olá Clarissa,
    Muito boas as suas dicas. Adorei! Estou querendo ir com minha família (esposo e 2 filhos de 21 e 18 anos) passar alguns meses na Espanha. Queremos ir para aprender espanhol assim como conhecer um pouco a Europa. Na sua opinião, para uma família, o melhor é Madrid ou alguma outra cidade da Espanha que talvez tenha um custo de vida menor? Muito obrigada. Abraços, Cláudia.

  9. Cla,

    seu post está delicioso de ler!! Me deu até ânimo de tentar uma bolsa de novo. :)

    beijos

  10. Muito obrigado por dicas tão valiosas! Também tenho vontade de estudar por lá, mas também já andei vendo Inglaterra, França, Dinamarca e Alemanha. Mas suas dicas valem para todos os estudantes em todos os destinos!

    Parabéns ao blog, que está sempre recheado de dicas ótimas e relatos muito interessantes! Viva aos viajeros!

    Abraços!
    André Bezerra

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