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Viagem para Cusco: o Valle Sagrado é mais que Machu Picchu

Cusco vista do alto. No meio, a Plaza de Armas

Depois de dois meses fechada por conta da cheia do rio Urubamba, a linha férrea que liga Cusco ao Valle Sagrado reabre nesta segunda-feira. Desde o fim de janeiro a circulação de trens foi suspensa porque as águas invadiram e inutilizaram parte do caminho. Resultado: desde então tornou-se impossível chegar a Machu Picchu.

Porta de entrada para o Valle Sagrado e com cerca de 300 mil habitantes, Cusco vive basicamente do turismo. Ou melhor, basicamente dos turistas que passam por ali rumo a Machu Picchu. Dá para imaginar, então, o que o fechamento do parque provocou na cidade.

O Valle Sagrado visto do alto, no caminho

Cusco é a cidade-base do Valle Sagrado – A escassez de turistas neste período foi tão grave que houve uma ação oficial do ministério do turismo para que hotéis, restaurantes e mesmo lojas de souvenirs passassem a oferecer descontos de 50% para os visitantes. Felizmente, esse período de seca deve estar chegando ao fim.

Embora Machu Picchu seja o objetivo final da grande maioria de turistas que passa por Cusco, não é só isso que a região tem a oferecer. Cidade-base do Valle Sagrado, Cusco guarda monumentos da época da dominação espanhola, ruínas incas e uma vida noturna que muitos apontam como a melhor do Peru – quanto a isso, infelizmente, não poderei testemunhar.

Índia numa rua de Cusco

Melhores épocas são outono e primavera – Cusco é uma cidade marrom. Ou melhor, cor de adobe, uma espécie de ‘concreto’ com o qual se constroem casas por ali. Também é um lugar onde se vai encontrar uma alta incidência de descendentes de índios. Assim, não se espante se encontrar mulheres jovens, ‘urbanamente’ vestidas, carregando crianças pequenas em panos amarrados às suas costas, como seus ancestrais. Em Cusco, descobri, nada é mais ‘out’ do que carrinhos de bebê.

As melhores épocas para se visitar a região são outono e primavera. No verão não é rara a ocorrência de chuvas fortes . No inverno, o frio na região pode ser rigoroso – em meados de março deste ano a temperatura em Cusco ficava em torno dos 15°C. Por outro lado, é no começo do inverno que acontece a grande festa da cidade: no dia 24 de junho se realiza a festa da Candelária, a padroeira de Cusco. Danças folclóricas, muita comida, muita bebida e muita animação sem hora para acabar é o que você pode esperar encontrar. Assim me disseram.

A fortaleza de Sacsayhuaman

Sacsayhuaman: ruínas que impressionam – Apesar da forte presença indígena, os traços inconfundíveis da dominação espanhola estão por boa parte da cidade: na catedral e no comércio dos arredores da Praça de Armas; em igrejas como a de Santa Clara ou o Templo da Companhia de Jesus. Também está presente em construções antigas, que hoje se transformaram em hotéis – muitos de luxo.

Da mesma forma, Cusco está tomada por relíquias incas. Muitas das contruções espanholas foram edificadas sobre outras, indígenas. Assim, é comum ver em suas bases as pedras geometricamente cortadas pelos índios. A poucos minutos do centro da cidade encontram-se as ruínas de Sacsayhuaman (ou Sexy Woman, como muitos turistas estrangeiros chamam, de brincadeira).

Versão contemporânea: carpaccio de alpaca

Cusco além das ruínas – Impressionantemente grande e geométrica, Sacsayhuaman acredita-se que tenha sido uma fortaleza inca, erguida para proteger o império dos conquistadores. Pedras gigantes perfeitamente encaixadas – sim, sem nada que cole uma a outra – deixam qualquer visitante intrigado e, reza a lenda, você deve escolher a sua pedra e ficar um minuto abraçado a ela para ser energizado. Além disso, localizada no alto, a fortaleza oferece uma boa vista da cidade e o Cristo branco, que foi apelidado de Redentor Junior, numa referência à estátua-símbolo do Rio de Janeiro.

Mas Cusco vai além das ruínas e do legado da dominação espanhola. Como em boa parte do Peru, a comida é ponto alto da viagem. É na serra da região que se cultivam muitas das cerca de 200 variedades de batatas que fazem parte do cotidiano dos peruanos. Além das batatas, também são recorrentes nas refeições o choclo – uma variedade avantajada de milho, com grãos do tamanho da ponta do polegar -, a truta salmonada e a carne de alpaca.
Cuy: mais para ver do que para comer

Sabores da região – Mas se você estiver em busca de algo mais exótico, vai encontrar o cuy, um primo distante do porquinho-da-índia que tem bem pouca carne. Mas a apresentação do prato é tão divertida (ou esquisita) que vale encarar ou tentar convencer alguém da mesa a fazê-lo.

Entre as sobremesas, você pode experimentar a mazamorra morada, um mix de geleia e gelatina feito de milho roxo que não é muito doce, ou os picarones, rosquinhas fritas feitas de massa de camote (tipo uma batata doce) e regadas com o que chamamos aqui de mel de engenho (de cana-de-açúcar). Para quem, como eu, gosta de doces muito doces, o suspiro a la limeña é imperdível: um creme tipo doce de leite coberto por um suspiro ou chantilly com um toque de limão. Como o nome sugere, a receita vem de Lima, mas tem muito em Cusco.

Fruta de um cacto, a tuna é docinha

Agora, para quem é do tipo que prefere encarar frutas exóticas, minhas sugestões são duas: o aguaymanto (que aqui se encontra como physalis), uma fruta amarela e azedinha do tamanho de uma cereja, ou a tuna, a fruta de um cacto, do tamanho de uma goiaba, com polpa bem rosada, cheia de sementinhas, de textura um tanto esfarelada e bem docinha. As bebidas típicas da região são a boa cerveja Cusqueña, o pisco sour (a caipirinha local), o suco de maíz morada (o tal milho roxo) e a chicha, uma bebida fermentada e nada doce feita também da maíz morada.

Atenção à comida – Delícias à parte, é importante lembrar que o índice de intoxicação alimentar por bactérias no Peru é relativamente alto entre turistas. Eu já estive no país duas vezes e nunca tive nada. Mas a maior parte dos meus amigos que já visitou o Peru teve pelo menos uma dor de barriga forte.

Alguns dos diversos tipos de milho

Entre as comidas ‘de risco’ estão principalmente os alimentos crus e as frutas de casca fina (como maçãs). Também não é recomendável comer frutos do mar em Cusco, já que a viagem que eles fazem para chegar até lá é longa.

Às compras –  A prata e as lãs são o hit do Peru, mas é preciso estar atento. A boa prata peruana, a mais pura que se produz por lá, tem gravada a inscrição 950, que quer dizer que apenas 5% daquela liga metálica não é prata. Uma prata 925 também é de boa qualidade, mas se o metal não tem uma dessas inscrições, não se engane: não é prata.  Com as lãs vale o mesmo. Muita gente vende sintéticos dizendo ser alpaca, lhama ou vicunha. Existem duas maneiras de se verificar se o material é autêntico ou não: casacos feitos com materiais naturais são mais pesados que os sintéticos e mais frios ao toque.  Agora, se você quiser comprar pisco,  a zona franca do aeroporto de Lima é a melhor opção, com variedade e bons preços.

Por falar em compras, vale destacar que produtos têxteis são o melhor para se comprar no Peru. De toalhas de mesa a mantas feitas em tear com lã de alpaca, passando por variações de pashminas, é possível trazer para casa uma lembrança útil e bonita por preços que podem começar em 11 soles (menos de 4 doláres).  Há ainda bolsas, necessaires, tapetes em peles de alpaca e vicunha, casacos em tricô, alguns artigos em couro e cerâmicas – tudo bem étnico.

Pátio do Casa Cartagena visto do quarto

Para mochileiros e para quem quer luxo – Com turistas em sua maioria europeus (os franceses adoram) e americanos, Cusco é um daqueles lugares onde a chance de você esbarrar com brasileiros é pequena – nós somos apenas o terceiro país da América Latina a mandar viajantes para lá. É também uma cidade que recebe bem do mochileiro ao turista em busca de luxo e conforto. Na primeira passagem pela cidade, sozinha, peguei um quarto no La Casa de la Abuela, administrado por uma chilena muito simpática, que me tratou como se fosse da família.
Na temporada mais recente, me hospedei no Casa Cartagena, um hotel boutique bem perto da Plaza de Armas. Instalado numa antiga mansão espanhola, tem quartos com varanda e banheira (no mínimo), spa com sauna e hidromassagem incluídas na diária, um pátio simpático com chafariz, bar modernoso e diversos objetos de design contemporâneo espalhados pelo espaço. As diárias custam a partir de US$ 615 dólares, mas até dezembro deste ano reservas feitas pelo site custam US$ 300. Acho bom eu frisar que me hospedei lá a convite.

Passe livre para ruínas – Foi a proprietária do La Casa de la Abuela quem me deu a dica de um passe que dá direito a visitar vários sítios turísticos do Valle Sagrado, que sai mais barato do que pagar entrada em cada um deles. Mesmo que você não vá a todos, é mais econômico. O passe inclui entradas para Sacsayhuaman e Ollantaytambo, por exemplo. Ollantaytambo é um complexo arqueológico que é um ótimo ‘esquenta’ no caminho para Machu Picchu.

A entrada do Wayra e as montanhas do Valle Sagrado

Outros pontos de interesse são Pisac, com seu mercado artesanal cujo forte são os têxteis, Chincheros, que também tem construções incas e um mercado artesanal. E ainda as salinas de Maras Y Moray, que surpreendem por seu formato circular. Ainda no Valle Sagrado fica Urubamba, a região afetada pela cheia do início do ano. Se você é um turista com um orçamento mais confortável, não pode perder a chance de passar pelo menos uma tarde no rancho Wayra. Lá, com a bela vista das montanhas, pode-se provar um almoço típico rústico, fazer passeios a cavalo ou em veículos motorizados pela região e assistir a apresentações folclóricas.

O soroche – Situada 3.400 metros acima do nível do mar, Cusco pode ser um desafio nos primeiros dias. O mal de altitude não é lenda nem desculpa de jogador de futebol que perdeu para algum time local. Nos primeiros dias na cidade, se você vier direto de Lima, especialmente, estará sujeito a dores de cabeça, palpitações, cansaço extremo e até ânsia de vômito. É o soroche, que atinge os visitantes que “vêm de baixo”, por conta da menor concentração de oxigênio na atmosfera.

Candelária: a padroeira de Cusco

Há algumas maneiras de se enfrentar o soroche. A mais eficaz costuma ser descansar com uma máscara de oxigênio, coisa que a maior parte dos bons hotéis tem à disposição dos hóspedes. Outra solução comum são as soroche pills, pílulas que prometem combater os sintomas mas que muitos não recomendam por terem alta concentração de estimulantes, como cafeína e taurina. O remédio mais comum, no entanto, é o chá de coca.

Ao contrário do que prega o senso comum, ‘hoja de coca no es droga’. Mascar folhas ou tomar chá feito delas são maneiras corriqueiras para amenizar o soroche. A minha maneira foi caminhar devagar, não comer nada pesado – o soroche também pode afetar a digestão – e esperar me aclimatar. Se nada disso funcionar, o ministro do turismo me recomendou o Dr. Lan: o primeiro voo da Lan Peru rumo a Lima. É tiro e queda.
Na quinta-feira, Machu Picchu será reaberta aos turistas e as Viajantes vão mostrar maneiras de se chegar à cidade sagrada. Até lá!
Personal Trip

About the Author

Flávia tem viagens planejadas para os próximos cinco anos, pelo menos. Só tem um porém: todas precisam de uma parada em Paris.

4 Respostas para “ Viagem para Cusco: o Valle Sagrado é mais que Machu Picchu ”

  1. Oi Allan, a sua pergunta foi respondida pela Clarissa neste post: http://asviajantes.com/viagem/roubadas-em-machu-picchu-como-evita-las
    Boa viagem!
    Abraços
    Flávia

  2. Oi Flávia, tudo bom? Muitas pessoas q vão para machu picchu incluem a visita a huayna picchu q tem um acesso mais restrito e uma vista privilegiada do sítio arqueológico. Pergunto: dá para conhecê-los no mesmo dia ou melhor visitá-los em dias distintos?

    Desde já, agradeço!

    Att.

    Allan Sena.

  3. Oi Gabriela, tudo bem e com você?
    Eu acho que Cusco pode ter mais dias no seu roteiro do que Lima. Primeiro porque esse lance do mal de altitude (soroche) é bem sério e quanto mais velho e mais sedentário o turista, mais suscetível fica ao mal-estar, que vai desde leve tontura em curtas caminhadas a falta de ar. Pode contar que no primeiro dia em Cusco você não estará 100% – se não estiver vindo de um lugar alto também. Além disso, muitos passeios da rota inca são nos arredores da cidade e tomam tempo. Eu dedicaria uns três ou quatro dias para Cusco (indo embora no quarto dia), contando o primeiro para fazer passeios mais tranquilos, pela cidade mesmo.
    Espero ter ajudado.
    Abraços
    Flávia

  4. Flavia,

    Tudo bom? Se você puder me ajudar, ficarei super grata. Quantos dias você recomenda passar em Cusco (fora o passeio a Machu Picchu)? Merece mais ou menos tempo que Lima?

    Adoro o blog! Um beijo

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