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Marrakech: minha estrela no Oriente

A bandeira do Marrocos, onipresente

Foi a cara de árabe do meu marido – um legítimo descendente de maranhenses – que inspirou a viagem pelo Marrocos. A passagem pelo país africano foi o meio de uma viagem que começou por Paris e terminou na Espanha, os dois países de onde o acesso é mais fácil.

Placas em árabe e francês: primeiro impacto

A transformação da praça vista de um terraço

Colonizado por franceses e emancipado apenas na metade do século XX, o Marrocos tem uma boa gama de voos para a França e saindo de lá e toda a população, praticamente, fala francês – que eles aprendem na escola. Ou seja, embora seja um país de língua árabe, a comunicação é bem fácil. Vale dizer que, como falo francês, fui a ‘tradutora oficial’ na viagem, mas meu marido até que conseguiu alguma coisa com o inglês meio atravessado (dele e deles), principalmente no comércio.

Rosas e laranjas – O primeiro impacto veio já na saída do aeroporto: placas com informações em árabe, enormes muradas cor-de-rosa e muitas roseiras nos canteiros. Marrakech é a cidade das rosas e das laranjeiras. Em abril, quando estivemos lá, não foram poucas as vezes em que vimos árvores cheias de laranjas no pé em plena rua.

O centro nervoso da cidade é a praça Jemaa el Fna, onde se concentram músicos, encantadores de serpentes, adestradores de macacos e mais todo tipo de artista de rua atento para pedir alguns dirhams ao turista desatento. Na praça também ficam dezenas de barracas vendendo suco de laranja e frutas típicas orientais, como tâmaras e damascos.

Barracas de frutas na Jemaa el Fna

Trânsito louco – Um passeio por ali é uma curtição, mas deve ser atenta: de bicicletas a carros, passando por charretes, não são poucos os veículos que circulam pela praça – e os pedestres que se cuidem! O trânsito em Marrakesh, aliás, é bem particular, uma vez que os sinais de trânsito quando existem são ignorados, nenhum motorista dá seta antes de fazer uma curva e os pedestres atravessam as ruas quando querem. Até hoje me pergunto como dá certo. Mas é fato que dá.

A Jemaa el Fna se transforma do dia para a noite. No fim da tarde, todos os dias, dezenas de barracas invadem aquele espaço, transformando-o numa espécie de superrestaurante a céu aberto. Cada barraca tem uma especialidade, que podem ser sobremesas, frutos do mar, kaftas, cuscuz marroquino, tajines… Estômagos mais sensíveis podem não suportar, pessoas mais exigentes podem querer apenas tirar fotos, mas nós achamos impensável não vivenciar aquilo ao máximo. Para ajudar, nosso guia – o francês Le Routard – foi fundamental.


Os terraços – Seguimos as indicações do guia e paramos na primeira noite numa barraca de frutos do mar. Sentamos ao lado de duas marroquinas muçulmanas e logo começamos uma conversa sobre diferenças culturais. Além da troca de conhecimentos, elas nos livraram do golpe do barraqueiro, que queria nos cobrar o dobro do que elas pagaram pela mesma comida. Ou seja: olhar atentamente o cardápio e combinar preços previamente é fundamental.

Para acompanhar a transformação da praça, a melhor pedida é se sentar num dos muitos terraços de restaurantes ali ao redor. São muitos os lugares que vão te dar uma visão panorâmica do lugar, com as andorinhas cruzando o céu ao por-do-sol. Consumir algo é mais que recomendado, mas pode ser apenas um chá de menta (imperdível) ou uma água (mineral, sempre) que boa parte dos lugares vende naquelas garrafas de 1,5l. O consumo de água, aliás, costuma ser o mais comum nos restaurante, já que a bebida lá quase sempre é servida em temperatura ambiente e o gelo, quando existe, não é muito confiável.

Hospedagem em riad – Aproveitando os custos mais baixos de Marrakech, pudemos optar por uma hospedagem menos mochileira. A habitação típica marroquina é a riad, quase uma mansão com dois ou mais andares em que todas as portas e janelas dão para um pátio central – que às vezes tem uma fonte ou piscina. Há diversos tipos de riads em Marrakech. Conhecemos gente que pagou menos de 10 dólares num quarto duplo. Nós pagamos o equivalente a 60 euros na L’Heure D’Été, linda, bem conservada, limpinha e com um café da manhã bem bacana servido no terraço (lembro até hoje da geleia caseira de laranja).

Nossa riad ficava bem no centrão da Medina, que é uma espécie de bairro sagrado em Marrakech. Apesar do mapa que tínhamos do site da pousada, chegar lá sem ajuda provou-se impossível. As ruas não têm placas e mesmo nosso ‘guia’ – um marroquino que viu nossas mochilas e as caras de perdidos e se ofereceu para nos ajudar – teve que pedir informações algumas vezes. Claro que a ajuda foi paga e isso poderia ter sido evitado se tivéssemos aceito a proposta da riad de mandar um carro nos buscar no aeroporto. E só depois soubemos que o custo seria o mesmo do táxi que pegamos lá.


A Medina – Marrakech, basicamente, se divide em dentro e fora da Medina. As grandes avenidas e seu trânsito louco, as contruções modernas, a juventude marroquina que adora marcas da moda e se veste como qualquer jovem ocidental antenado estão do lado de fora. Do lado de dentro, muitos becos e ruelas que às vezes nos fazem sentir dentro de favelas, alguns pedintes, muitos muçulmanos mais tradicionais (inclusive mulheres de burca) e um bocado de turistas.

Dentro da Medina, bebida alcoólica, por exemplo, só é vendida em hotéis e similares autorizados. Cerveja em restaurante nós só encontramos numa espécie de boteco fora da Medina, num almoço que nos rendeu uma experiência no mínimo interessante, uma vez que eu era a única mulher dentro de um salão ocupado por mais de 10 homens assistindo ao noticiário, fumando e bebendo – a maioria, chá.

Teatro Real: na parte mais moderna de Marrakech

Teatro Real: na parte mais moderna de Marrakech

Por-do-sol do terraço da nossa riad

Haxixe e narguilé – O narguilé é o fumo oficial dos marroquinos. A grosso modo, trata-se de uma garrafa que a gente enche de água e cobre com tabaco aromatizado (específico) para fumar coletivamente. É uma curtição e a variedade de tabacos é impressionante, embora aqui no Brasil já não seja mais tão difícil encontrar bom fumo para abastecer a narguilé que trouxemos de lá – nos recomendaram os egípcios. Há bares e restaurantes que oferecem a experiência, mas nós achamos meio nojento fumar numa piteira desconhecida.

Já o haxixe é a droga mais comum no Marrocos. E vai ser fácil encontrar alguém na rua oferecendo um bocado para você. O problema é que um golpe supercomum por lá é te venderem a droga e, em seguida, te denunciarem ao policial mais próximo. A coisa é tão séria que duas pessoas de uma excursão que fizemos compraram haxixe na estrada e levaram uma bronca do nosso motorista, que confirmou a história do golpe. Apesar da facilidade, não se engane: o consumo de haxixe no Marrocos é proibido e pode dar cadeia.

Atenção aos táxis – Os marroquinos, de modo geral, são bem simpáticos. Mas boa parte deles vê turistas como fonte de dinheiro, o que de certa forma é natural. Assim, se você entrar no Teatro Real, por exemplo, e alguém começar a lhe contar a história do lugar, tenha certeza: você será cobrado ao final da visita. O mesmo vale para fotos de pessoas ou dos animais expostos para exibição na Jemaa el Fna. Além disso, os táxis requerem atenção extra. Ou você exige que ele ligue o taxímetro ou combina o preço da corrida previamente – e esteja certo de você e o taxista estarem falando as mesmas palavras, ou 13 (thirteen) podem virar 30 (thirty) e acabar numa discussão.

Encantadores de serpentes na Jemaa el Fna

Encantadores de serpentes na Jemaa el Fna

Outro ponto que merece atenção são os souks (mercados). Eles são incríveis, superinteressantes e ricos, cheios de produtos típicos – e muita quinquilharia também. Mas a famosa “só uma olhadinha” vai certamente fazer um vendedor ficar no seu pé perguntando quanto você quer pagar por aquilo que você estava só admirando, sem intenção de compra. E se você quiser mesmo comprar, prepare-se para a barganha. Os vendedores pedem preços altos, você tenta baixar e acaba vencido pelo cansaço. Apesar do que muita gente diz, não se conseguem descontos de 90% nessa ‘disputa’. Além disso, depois de oito dias no país, a gente queria apenas pagar, não mais pechinchar até pela água.

Comer e comprar – Nossa experiência com a comida marroquina não foi das mais variadas, apesar do tanto que se fala da comida árabe. O tão falado cuscuz marroquino nós nem vimos. Já o tajine… Tajine*** é um ensopado feito naquela panela de barro que parece um funil ao contrário e é oferecido em TODOS os restaurantes. Pode ser de todo tipo de carne com legumes ou apenas de legumes. E é fortemente temperado no cominho. É uma delícia e o melhor que nós comemos foi no deserto do Saara, mas depois de oito dias sem variar muito no menu, o gosto do cominho cansa um bocado, uma vez que ele é onipresente na cozinha.

Jardin Majorelle: um oásis em azul klein

Jardin Majorelle: um oásis em azul klein

Nos souks da Medina a gente encontra belas peças em marchetaria (trabalho em madeira), batas, mantas, bijouterias, instrumentos musicais, sapatilhas bordadas, artigos em couro, temperos. Tem muita coisa bacana e muita coisa tipo “engana-turista”, peças com qualidade garantida costumam ser mais caras e menos “barganháveis”. De tudo o que compramos lá – e não foi pouca coisa – o que mais valeu a pena foi uma manta de sofá feita em tear e uma pandeirola em couro de camelo. Já as batas, mal resistiram à primeira lavagem.

Jardin Majorelle – Em abril a temperatura em Marrakech é relativamente quente. À noite, o clima fica bem mais ameno. Mas se bater uma vontade de fugir do vai-e-vem frenético da Medina, a melhor opção é o Jardin Majorelle. Já foi casa do francês Jacques Majorelle, depois comprada pelos estilistas Pierre Bergé e Yves Saint Laurent. Não é um espaço grande, mas aquele azul klein em meio ao rosa constante da cidade é de encher os olhos. O Majorelle é um ótimo lugar para aquela paradinha para uma lida ou uma partida de algum jogo, ou só para descansar e pensar em nada em um dos bancos.

Marrakech foi nosso ponto de partida para o passeio mais incrível que já fiz na vida: uma ida do deserto do Saara com pernoite numa tenda berbere. É tão, mas tão sensacional que vai render outro post. Da cidade o acesso também é fácil para Fez – cidade turística que divide opiniões sobre valer ou não a visita – e Essaouira, um bela cidade de praia onde a pesca e o turismo são a base da economia. Além disso, há trens noturnos relativamente confortáveis que nos deixam em Tanger, cidade litorânea onde pegamos o ferry-boat para cruzar o Estreito de Gibraltar rumo à Espanha. Foi uma viagem sofrida com 80% dos passageiros passando mal a bordo. Mas foi rápido, barato e confortável até o primeiro enjoo. A única coisa que eu faria diferente seria caprichar no dramin.

*** Tajine se pronuncia com ‘jota’ mesmo; tahine é um ingrediente da pasta de grão-de-bico, outra receita

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Muradas cor-de-rosa e roseiras: típicos da cidade

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Personal Trip

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Flávia tem viagens planejadas para os próximos cinco anos, pelo menos. Só tem um porém: todas precisam de uma parada em Paris.

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